terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Nunca entendemos nada

È incrível como uma criança tem a capacidade de fazer com que nós adultos, reflitamos sobre a real ordem das coisas.Outra noite meu filho acordou assustado, chorando, deitei ao seu lado, e por achar que estava sonhando tentei acordá-lo, ele silenciou por alguns segundos e falou:
- Pai, você acha que a natureza pode falar?
- Claro, eu lhe disse.A natureza sempre fala com a gente.Ela nos avisa quando vai chover, quando vai fazer frio ou calor, não fala como a gente, mas se faz entender muito bem. Mas, sabe Gú nós desrespeitamos a natureza, estragamos, desperdiçamos, sujamos, colocamos em risco os recursos que ela nos oferece, estamos acabando com a natureza aos poucos e cada vez mais. A natureza falava com a gente para nos avisar, para nos presentear, atualmente ela sempre que tenta falar com a gente, ela grita pedindo socorro.
- Mas pai, quem falou que ela está pedindo socorro?
- Está sim filho, a todo instante maltratamos, machucamos a natureza.Cortamos as árvores, sujamos os rios, o ar, você não acha que ela deve sentir dor com tudo isso?
- Acho. Ele me falou.
- Mas eu estava sonhando, e no meu sonho tinha uma menina sentada em uma escada e ela ficava só, olhando as pessoas passarem apressadas, brigando umas com as outras e às vezes ela chorava.
- Pai sabe quando a gente chora, mas não é choro de dor? Então, era assim que ela chorava.
No sonho eu tinha acabado de comprar balas daquelas azedinhas que a gente gosta, sabe? Então, fui ver se a menina queria uma, quem sabe ela não parava de chorar, podia ser fome.Ela também gostou da bala e disse que nunca tinha comido uma daquelas. Perguntei o que estava fazendo ali sentada, e ela contou que sempre ficava ali e que já fazia muito tempo, mas que ninguém a notava. Contou também que já viu um monte de coisa acontecer, e que sempre tentava avisar às pessoas antes que acontecesse, mas elas nunca a entendiam.
- Sabe pai, a menina estava chorando, porque ela não se conformava em ver às pessoas sempre correndo, brigando umas com as outras, estragando tudo. Disse que sempre foi assim, o tempo passava, apareciam pessoas diferentes, mas sempre era a mesma coisa.
Ela me contou que de um tempo pra cá, algumas pessoas até passaram a falar com ela, mas sempre que falava alguma coisa, eles nunca entendiam e lhe davam algo, uma esmola, tentavam cobri-la por causa do frio.
- Pai ela não precisava nada disso.
- Mas filho, você não acha que uma menina sentada em uma escada podia estar sentindo frio, fome, precisando de alguma coisa, de uma ajuda?As pessoas tinham que ajudá-la, protegê-la.
Então, ele continuou.
- Mas era por isso que a menina estava chorando, ela ficava ali sentada, o tempo passava, as pessoas passavam, sempre tinha pessoas novas, mas a menina era a mesma, ela estava crescendo e ia continuar crescendo, ela não era como a gente.Ela chorava, por que via a maioria das pessoas tristes, buscando coisas que não podiam ter, não ouviam umas as outras, o tempo acabava sem que tivessem aproveitado.
Aí, eu acordei e fiquei pensando:
- Será que quando a natureza fala com a gente, ela não está tentando nos avisar que estamos estragando a nossa vida, que estamos nos matando? Me deu uma tristeza e comecei a chorar.
Cheguei mais perto e aconcheguei-o em meu ombro, e disse:
- Sabe filho, acho que você tem toda a razão.A natureza precisa ser preservada para podermos aproveitá-la melhor, enquanto estamos vivos e com saúde, se continuarmos vivendo do jeito que estamos vivendo, nós só encurtaremos a nossa vida e a natureza permanecerá, se refará, leve o tempo que levar, a nossa vida não.
- Pai, obrigado. Eu e a Natureza te amamos.