(Alexandro de Medeiros)
Há um mês, comprei alguns produtos em um site da Internet, que prometia entregá-los em dois dias, após o pagamento.Imprimi o boleto e paguei no dia seguinte.Passaram os dois dias e nada, uma semana e nada.Ontem, no dia que o meu pedido fez aniversário de um mês, me ligou uma moça, e disse que o meu pedido foi analisado cuidadosamente pelo responsável financeiro da empresa, o qual concluiu que o pagamento não foi processado pelo banco.Me controlei para não explodir.
- Simples assim, depois de um mês o problema não é de vocês e sim do banco?Eu perguntei.
- Exatamente senhor, nosso sistema é totalmente automatizado e a prova de falhas, o problema só pode ter acontecido no banco onde o senhor efetuou o pagamento.
Novamente me controlei, agora descarregando toda minha raiva em uma caneta que ficou espalhada por toda a sala.
- Ok!Vou até o banco conversar com o gerente. Disse para a moça.
- Tudo bem Senhor, estarei podendo ajudá-lo novamente, assim que o problema do banco for resolvido.
Foi a gota d’água. Saí batendo portas e pés, quando senti uma coisa no meu ouvido, um zunido repetido (estarei podendo, podendo, podendo).
Durante o caminho tropeço três vezes e piso nas coisas de um cachorro que esqueceu de educar seu dono.
Na frente do banco, dois seguranças sorriam enquanto uma enorme bunda entrava em seu fusca.O CARRO TINHA CILIOS NOS FARÓIS, eu nunca tinha visto aquilo e nem uma bunda daquele tamanho.
Não poderia me distrair, estava nervoso, indignado e tive que arrancar aquela imagem da mente.Confesso que foi difícil.
- Boa tarde, eu preciso falar com o gerente.Disse a um rapaz vestindo um colete azul com a inscrição ”Posso ajudar”, que estava ao lado da porta giratória.
- Dona Marta acabou de sair para o almoço; ele me respondeu.
- Como almoço, são três horas da tarde?
Essa é boa, um mês tentando receber três produtinhos e a gerente resolve almoçar logo na minha vez, nunca pensei que gerente almoçasse.Devia ter almoço para as filas do banco também, essas nunca têm folga, estão sempre lá, lotadas, ordinariamente compostas de gente de todo o tipo.
- Quando ela volta?
- Ela não volta mais hoje!
Ah! Seu eu tivesse uma caneta em minhas mãos...
Respirei fundo, e perguntei:
- Quem pode me ajudar?
- O Senhor pode falar direto no caixa.Respondeu o rapaz.
Na primeira tentativa de passar pela porta giratória o alarme disparou, o segurança me pediu para colocar todos os objetos de metal em uma caixinha ao lado, e retornar para trás da linha amarela.Só me faltava essa. Aquela faixa amarela devia ser algum aviso do tipo:
“Atenção! É melhor não entrar”.Ainda assim eu entrei.
Ao me virar para os caixas, eu a vi.Ela estava enorme, tinha umas vinte pessoas, fiquei ali uns cinco minutos, até que as coisas começaram a melhorar.Acho que era troca de funcionários e uma mocinha, bonitinha agilizou todo o processo.
De traz de uma senhora gorda eu não podia ver muita coisa, aquela cabeleira era enorme, só me restava olhar para o chão.A visão não era a mais agradável, e o pouco tempo entre um passo e outro, compensava ter que ficar olhando aquele calcanhar, que mais parecia um rinoceronte.
Chegou a minha vez.
- Boa tarde, eu vim procurar a gerente...Fui interrompido.
- Senhor o sistema caiu, infelizmente...Aí, eu a interrompi.
- Como caiu?Mocinha pegue esse sistema agora, eu preciso dele!
Será que o sistema também foi almoçar?Pensei.
- Senhor, infelizmente não estarei podendo ajudar.
Como eu queria não estar ali, e ainda mais sem nenhuma caneta nas mãos.Pela segunda vez no dia aquele zunido repetido (estarei podendo, podendo, podendo) eu estava enlouquecendo, até que tudo silenciou.
Será que valia a pena tudo aquilo?
Os tropeços, as coisas do cachorro, a fila, o sistema...
Fiquei quieto por um segundo meu.
- Senhor, o banco encerrou suas atividades por hoje.Disse um dos seguranças.
Eu cheguei ao banco às 15:01, por volta das 15:25 eu estava na fila, onde levei quinze minutos para chegar ao caixa, em menos de cinco minutos fui dispensando sem uma solução.
Aquele meu segundo durou 01:15 minutos, considerando que a agência fecharia ás 17:00. Como me deixaram todo este tempo ali parado?Será que eu não estava atrapalhando?
Do lado de fora eu tentei me lembrar o que me fez desligar daquela forma, esquecendo das coisas, do gerente, dos produtos, da fila e tudo mais. Passei todo o caminho de volta para casa pensando, até que descobri.
O que leva uma pessoa a colocar cílios em um fusca ?
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
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