(Alexandro de Medeiros)
Diariamente, jogos de desrespeitos sociais acontecem, muitos participantes, todos com DAS (Deficiência Social Adquirida), se aglomeram nos pontos de ônibus, plataformas do metrô, dos trens, para iniciar a largada da corrida aos poucos bancos inteiros e disponíveis nos transportes públicos da cidade. Ao abrir as portas, todos partem, em desenfreada disparada, acotovelando-se, empurrando, chutando, defendendo-se dos que para sair são obrigados a fazer o mesmo, senão, correm o risco de iniciar a viagem de volta sem nem mesmo ter chegado.
Todos os bancos são ocupados, inclusive os reservados para pessoas com necessidades especiais e garantidos por lei.Mas nesses jogos a única lei é: Danem-se as leis, sejam elas legais ou morais.
Uma velhinha entra, bengala na mão esquerda, cotovelo direito enfaixado e todos olham sem querer ver.No primeiro solavanco, ela bate as costas no balaústre, pois, não tem condições, nem idade para sustentar o peso do corpo.
O cobrador grita:
- Pessoal vamos dar lugar para a senhora sentar!
Todos escutaram, mas ninguém ouviu.Alguns ao ver a velhinha desequilibrar até afastaram para evitar um esbarrão, outros desajeitadamente confortáveis, fingiam dormir sentados no banco reservado com o rosto virado para o lado oposto.A competição é acirrada e todos dão o máximo de sua indiferença e o mínimo de seu respeito ao próximo.
Um menino que estava sentado olhou a velhinha e levantou-se para lhe dar lugar. Imediatamente um senhor, trinta e poucos anos, bem vestido, mp5, fones nos ouvidos sentou no banco vago, após empurrar duas mulheres que também disputaram a vaga. O menino chorou, após um beliscão, seguido da repreenda do pai:
- Eu já não te falei para ficar sentado menino, agora vai ficar de pé o resto da viagem e trate de engolir o choro,viu..O menino ficou quieto, soluçando baixinho, ele conhecia bem aqueles beliscões.
Do fundo do ônibus uma garota cantava:
- Tô nem ai! Tô nem ai!Sem perceber que todos ouviam.
O ônibus seguiu viagem, a velhinha continuou de pé.Ela contou a uma outra senhora com quem dividia alguns centímetros de espaço, que machucou o cotovelo ao sair de um trem da CPTM.
- Achei que fosse morrer, quando vi, eu estava deitada no banco da estação e um punhado de gente me olhando, uns abanando, outros falando no celular.O médico falou que vai ficar inchado por três dias, e roxo por uma semana.
O ônibus finalmente chegou ao ponto final.Todos rapidamente se levantaram, e agora se empurravam para ver quem seria o primeiro a sair do ônibus, exceto a velhinha.Ela silenciosamente aproveitou para sentar um pouco.
Nesses jogos de desrespeitos sociais, os atletas são todos perfeitos...
Talvez uns ou outros tenham uns Tiques nervosos, por inoperância de um Tico ou de um Teco...
Mas com certeza, nenhum possui deficiência mental...
No fundo, a deficiência desses atletas é social, é humana, para eles o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho é ridicularizar quem perdeu, mesmo sabendo que amanhã, possam ser eles, os perdedores.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
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